"Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida... preciso demais desabafar." O que penso, o que sinto, acima de tudo o que não consigo calar.
24 de fevereiro de 2013
24 de agosto de 2012
Paz, amor e respeito
28 de abril de 2012
A criação do mundo - versão acadêmica
25 de outubro de 2011
Urgente

É preciso avisar toda a gente
Dar notícia informar prevenir
Que por cada flor estrangulada
Há milhões de sementes a florir
É preciso avisar toda a gente
Segredar a palavra e a senha
Engrossando a verdade corrente
De uma força que nada detenha
É preciso avisar toda a gente
Que há fogo no meio da floresta
E que os mortos apontam em frente
O caminho da esperança que resta
É preciso avisar toda a gente
Transmitir este morse de dores
É preciso imperioso e urgente
Mais flores mais flores mais flores
(1924-1988)
19 de setembro de 2011
9 de agosto de 2011
De onde vem essas luvas azuis?
O garotinho tinha cinco anos e entrou na sala meio cambaleando, bastante desconfiado, medindo tudo com os olhos. Tinha razão, afinal, em um hospital todas as salas são pra se colocar também, um pouco de desconfiança, elas contém seringas, agulhas, injeções, coisas demais que crianças não gostam. O pequeno ainda vestia o pijama. A mãe, logo se defendeu:
- É muito preguiçoso pra acordar! Estávamos atrasados, preferi não trocar de roupa…
Eu disse que tudo bem, conversamos e distraí o garotinho como de costume. Ele estava lá para fazer um teste bastante simples, onde é preciso fazer uma micro incisão no antebraço - 5mm de comprimento por 2mm de profundidade. Como eu mentia (quase sem precisar), "uma picadinha de formiga".
Vesti o par de luvas descartáveis. Eu usava luvas especiais, anti-alérgicas. Essas eram azuis, e claro, despertaram a curiosidade do garoto:
-Azuis! Elas são azuis!!!
Confirmei, "sim, azuis!", e pronto, uma vez confirmado, poderia ter parado por ali. Mas não, continuei e tentei colocar as luvas e toda aquela situação no plano da fantasia. Então, perguntei pra ele,
-E você sabe de onde elas vem???
Esse foi momento em que eu, além de querer criar o mundo da fantasia, também perdi a medida do tempo e esqueci que pelo menos, 20 anos nos separaram.
-Não!!! De onde elas vem??? - ele perguntou, assim mesmo, bastante eufórico.
-Elas vem lá da terra dos Smurfs! - disse eu.
[Silêncio]
Se estivessem por ali, ouviríamos o som dos grilos.
No meu rosto, à espera de que ele relacionasse o azul das luvas ao azul dos Smurfs, estampava-se um grande sorriso; no dele, com o dobro do tamanho, uma interrogação.
Confesso, fiquei indignado. Como podia uma criança não saber quem são os Smurfs! Como poderia então, nunca ter cantado o "lá, lá, lá lá lá lá, lá, lá lá lá lá"? Não saber sobre o Gargamel e seu gato Cruel, a Smurfete! Como?
A mãe do garotinho percebendo o desconforto da situação se pôs mediadora:
-Então… [num tom bastante delicado, pra não me ofender], Os Smurfs são do nosso [olhando para mim] tempo né… Não do dele… ele tem só 5 anos!
O garoto continuou por alguns instantes com aquela interrogação estampada no rosto, que mal se desfez quando outra surgiu: quis saber então, como uma "formiguinha" - essa que logo mais o picaria - tinha entrado no dispositivo que faria a incisão em seu braço… Ele, como toda criança tem um mundo pra descobrir, não poderia perder mais tempo com luvas azuis da terra dos Smurfs.
Hoje, fui tomar um café no Café do cinema e vi o cartaz do filme dos pequenos azuis. Lembrei desse caso e ri sozinho. Se pudesse, levaria ele para assistir Os Smurfs. Aí então, ele descobriria de que mundo vieram aquelas luvas azuis…
(E tantas outras coisas que como os Smurfs, moram pra sempre na minha memória, naquele cantinho dos Verdes Anos.)
24 de julho de 2011
É divulgada a causa da morte de Amy Winehouse

De Londres
Os médicos do serviço legista da Scotland Yard divulgaram há pouco o resultado da necropsia do corpo da cantora Amy Winehouse, encontrada morta em seu flat em Camden na tarde de ontem (sábado, 23).
Como causa da morte foi apontado "choque fisiólogico" que teria "provocado uma parada cardio-respiratória, levando à falência múltipla dos órgãos". O choque, afirmaram os legistas, foi causado por uma situação psicológica conhecida como "inadequação social grave". Os portadores desta condição, considerada por médicos, psicólogos e psiquiatras um grande problema de saúde pública, problema esse que teria levado Machado de Assis a escrever o best-seller "O Alienista" em 1882 (CLIQUE AQUI PARA COMPAR "O ALIENISTA", DE MACHADO DE ASSIS), atinge cada vez mais seres humanos, principalmente jovens. De origem complexa, tal situação costuma levar seus portadores a adotarem hábitos auto-destrutivos, como o consumo de drogas, uma vez que percebem que não há maneira possível de conciliar suas idéias e necessidades com as do mundo em que vivem. No caso da cantora inglesa, os médicos ainda acrescentaram como fatores agravantes o assédio da imprensa e paparazzis à sua conturbada vida e sua consequente exploração midiática. Devido ao ocorrido, o serviço de saúde pública inglês promoverá nas próximas semanas uma campanha de adequação psico-moral entre os jovens que apresentarem os sintomas desta grave doença.
O corpo da cantora Amy Winehouse será cremado na manhã de segunda-feira. Haverá transmissão da cerimônia ao vivo pela BBC e os assinantes do sistema de pay-per-view da rede poderão acompanhar com exclusividade a cerimônia íntima, dedicada aos parentes e amigos e que acontecerá antes da cerimônia pública (CLIQUE AQUI PARA ASSINAR O PAY-PER-VIEW DA BBC).
Sucesso
Há planos também para o relançamento do álbum Back to Black (2006), bem como de uma série de DVDs com apresentações da cantora pelo mundo, alem do projeto Amy=Fail, um conjunto de vídeos de apresentações fracassadas da cantora. A Mattel, pretende colocar no mercado ainda para o natal deste ano a Barbie Winehouse, uma boneca Barbie morena e que deverá vir acompanhada com um copo de vodka na mão. A Barbie Winehouse ainda contará com um dispositivo de fala, que dirá versos de músicas de Amy, como "What kind of fuckery is this" e "You know I'm no good".
Ainda sob o peso do luto, a gravadora da cantora informou que havia instalado câmeras em sua casa para monitorar o seu compartamento, o que vinha causando repetitivos prejuízos à companhia. Prometem, sem edição, lançar ainda neste trimestre, todo o material gravado na forma de um reality-show, provisoriamente intitulado "REHAB: Amy's Real Li[v]e".
Os especialistas falam
A geneticista brasileira Maryanna Zasttz, da Universidade de São Paulo, foi procurada pela redação para falar sobre a doença que teria causado a morte de Amy Winehouse. Segundo ela, "não há evidências científicas suficientes para atribuir a morte de Winehouse a um distúrbio patológico social; Maryanna afirma que "pelo contrário, acreditamos cada vez mais que o consumo de drogas e de álcool, bem como a adoção de hábitos de vida desregrados e imorais" afetam os genes e no caso, teriam "afetado os genes de Winehouse, levando a cantora a um quadro irreversível de degeneração fisiológica", que culminou em sua morte. "Era evidente que isso aconteceria. Ela se recusou ao REHAB. Continuou bebendo, fumando até crack! Procurou a morte, desde o início". Maryanna Zasttz, disse ainda ser grande fã do trabalho de Amy e que aguarda ansiosamente pelo lançamento do reality show "REHAB: Amy's Real Li[v]e".
6 de julho de 2011
Sobre fazer robôs
Sim, ao abandonar o projeto do meu primeiro robô, com alguns anos de antecedência definitivamente vivi o fracasso com relação a números, medidas e cálculos que a partir da sexta série seria uma constante em minha vida escolar. Mas o que posso fazer se sempre me apeguei mais às linhas gerais, às formas das coisas, do que aos seus detalhes?
Duas décadas depois e com um substancial know-how em rascunhar milhares de robôs e concluir o projeto de apenas algumas dezenas, me vejo agora numa dessas situações limite que clareiam o entendimento sobre toda uma vida e fazem a gente entender pequenos eventos que ficaram lá na memória, como meu primeiro robô.
No exercício diário de escrever minha dissertação de mestrado, o que posso dizer tranquilamente que é o meu atual trabalho - e no literal entendimento da palavra -, vejo à minha frente milhares de porcas, parafusos, conectores, fios, plugues, toda uma sorte de coisas que preciso juntar cada uma no seu lugar certo, para fazer com que meu robô mais especial abra os olhos. Escrever uma dissertação é um trabalho de muito engenho também. Neste sentido, por mais que eu tenha fugido dos números e cálculos (e depois dos papéis, das bancadas…), me vejo agora nessa oficina das palavras onde dia após dia, tento trazer à vida esse mundo de pecinhas soltas. Esta é uma engenharia muito especial: não de números, mas de palavras e idéias.
Para aquela dúvida, "o que ser quando crescer", ainda que tudo indique que já cresci, não tenho resposta. E já não sei se quero uma: acho que desisti de ser algo, justamente quando cresci. Resolvi foi construir robôs, dos mais variados: textuais, imagéticos, psicodélicos, ideológicos, poéticos, musicais. Parece, resolvi antes estar do que ser.
Aliás, sim, há uma escolha nisso tudo! Escolhi sempre me perder entre novas porcas e novos parafusos, que inexperimentados me mostram outras possibilidades de novos robôs. Eu não cresci para escolher o que ser. Eu cresci para escolher diariamente o que fazer. E assim, deixo o tempo me levar.

o simpático robô Wall-E
15 de dezembro de 2010
All things must pass
12 de dezembro de 2010
Sobre o prazo de validade das coisas
Tudo vence um dia. Tudo vence num dia, num outro dia, vence-se tudo. É uma escolha, ser vencido, vencer.
8 de dezembro de 2010
O bom-dia e a estética-do-viver
Diariamente oferece alguns bons-dias sem esperar muito em troca. Não que tenha se acostumado à tradicional falta de humor que as pessoas tornam-se em grandes cidades, também pudera, são buzinas, fumaças, sirenes e trombadas já pela manhã, mas porque tem a continua impressão de que as pessoas, aqueles conhecidos (não os amigos, aqueles outros, que se veem diariamente e por causa disso mesmo, dessa repetição diária de contato visual sem maiores expectativas, tem suas caras umas gravadas nas mentes das outras), não se reconhecem. Não sabe explicar de onde vem essa sensação, o que sabe, é que não repondem ao cumprimento o que muitas vezes, faz com que ele mesmo, não dê partida à cortesia.
E hoje, que surpresa. Ao descer do ônibus, depois de um saldo de cinquenta por cento de sucesso nos bons-dias até então oferecidos, sendo o motorista o responsável pela metade perdida e o cobrador o responsável pela metade ganha, eis que desce e aproxima-se da barraquinha da moça que vende café na calçada do hospital, prepara-se para o próximo bom-dia quando percebe, ela, num movimento rápido, antes das palavras saltarem da sua boca, abre o pote onde ficam os copos plásticos em que serve o café, saca um, posiciona-o abaixo da saída da garrafa e aciona o sistema de vácuo que faz-lo jorrar. Ela serve o café, bom-dia, ele diz. O bom-dia saiu assim, chocho, pois do espanto, não foi um desses bons-dias, do tipo "bom-dia!!!", foi um bom-dia do tipo "bom-dia…", e foi mesmo assim desconfiado e com reticências, porque antes de dizer o que queria, antes do bom-dia deixar de ser intenção e ser um bom-dia de fato, ela já tinha servido o quente e necessário cafézinho (e é importante saber, ela não vendia só café, haviam ali bolos variados, doces, leite e o brasileiríssimo, digo mineiríssimo, pão de queijo, poderia ele escolher qualquer uma dessas quitandas, como se diz lá em Minas, mas não, sabia ela que ele queria era o café, só o café, e esse de um real, porque tem também ali na barraquinha o de cinquenta centavos, metade do volume, o que não provê cafeína nem para passar o sono, menos ainda para as leituras densas e empoeiradas que tem feito), o que vem provar que, a moça se lembrava dele, de todas as outras vezes em que ele tinha por ali passado, de todos os outros bons-dias que havia dado e de todos os outros cafés de um real que havia comprado. Isso o fez pensar, que também talvez, todas aquelas pessoas conhecidas, não os amigos, os outros do caminho, e de diversos outros caminhos, porque o que mais temos na vida são caminhos e pessoas percorridos diariamente, também se lembrem dele, do mesmo jeito que ele se lembra delas, o que causa maior inquietação porque patente fica que ambos dão-se ao mesmo desagradável hábito: não se bom-diam-se, porque pensam, não lembram-se um do outro.
Essa sensação foi confirmada, após ela responder o bom-dia alegremente, não um "bom-dia…", mas um "bom-dia!!!". Ela só não se lembrou que o café que ele bebe, é sem açúcar (também pudera, não se pode lembrar de tudo a todo momento nessa vida), se fosse uísque, seria do tipo "cowboy", mas é café, só água muito quente e café, puro. Quando ela aproximou a colher do pote do doce e branco ganulado, foi lembrada: "o meu é sem açúcar", ele disse, espanto novamente, disse a moça: "ah! verdade, sem açúcar, sempre esqueço que o seu é sem açúcar, igual o do meu marido, do meu irmão, eles também bebem assim, como você, sem açúcar…" (vejam só, ele de repente, na mesma sentença que seus parentes mais íntimos, o filho da sogra e o outro filho da mãe, e ele, sabe-se lá filho de quem, ligados por essa preferência da amarguez do café, o que vem mostrar também que sim, ela se lembrou dele, afinal, não iria colocá-lo na mesma categoria de preferências amarguísticas que seus familiares se fosse um total estranho. É preciso mínima intimidade para adentrar um lar. Esse "sempre", foi confirmar: ela sabe quem ele é, não exatamente quem ele é no sentido de saber onde e de que corpos nascera, de onde vem, se é de deus ou do diabo, o que faz, se gosta de mulher, de homem, ou dos dois, se é casado e tem filhos, se gosta de futebol, e sendo sim a resposta, se torce pro Corinthians, Palmeiras ou São Paulo, sendo não, "que estranho, não gostar de futebol", essas coisas que todo mundo gosta de saber sobre tudo mundo. Sabe ela, quem ele é, porque ele é diariamente, aquele que desce do ônibus vermelho, vira a esquina e pede um café de um real (sem açúcar). Aquele que dá um bom-dia, sem muito esperar em troca. Talvez desconfiado, talvez medroso, talvez confuso, talvez ela pense “que raios de bom-dia é esse”, diariamente confuso, por antes estar medroso, desconfiado, com o que não sabe, com a vida talvez, essas coisas metafísicas e existenciais, por que não psicológicas, que tiram o sossego de qualquer um humano.
Mas hoje sobrou um pouco de clareza, da certeza, de que a confusão talvez nem exista de fato, ou pelo menos, diferente de existir, assim, substancialmente existência, seria mais algo que se faz questão de manter, como essas linhas penduradas nas barras ou mangas das camisas, que um puxão com pouca força já dá conta de resolver a questão estética e pendente. Entrou no parque, continuou a leitura do romance enquanto terminava o café de um real puro (puro o café, não o real, porque todo dinheiro é sujo, se não na sujeira que das mãos passam ao papel ou ao metal da moeda, na sujeira de ser mesmo dinheiro em si) com a certeza de que amanhã se tudo der certo, pelo menos um bom-dia sabe que ouvirá, um "bom-dia!!!", não um "bom-dia…", com o que, abraçará a moça do café, dirá ter sentido saudades, menos, o “bom-dia!!!” em resposta basta.
É preciso coragem para dar um bom-dia, porque cada bom-dia por simples que pareça é invasão, é um enfrentamento; é preciso coragem para responder a um bom-dia, porque cada bom-dia respondido, é um doar-se, é deixar ir um pouco de si e aceitar um teco do outro. É troca e como troca é, será também, se sucesso tiver a empreitada, uma dádiva, pra encerrar a coisa assim com um tom de antropologia. E como servir um café antes do bom-dia sair, põe tantas engrenagens mentais, simbólicas, psicológicas e metafísicas a se engrenarem e roçarem-se umas nas outras, ele já tem uma lição desse dia, se fosse um daqueles contos infantis, a tal da “moral da história” seria, puxar com mais força e coragem e quebrar essas linhas, coisas penduradas, linhas-coisas-penduradas escreveria o Latour, pois gosta dos hífens como ninguém, que talvez nem existam mas estragam a estética-do-viver.
25 de julho de 2010
Por um pouco de razão
12 de fevereiro de 2010
10 de fevereiro de 2010
Ninguém vai a um hospital passear -ou "I don't want to follow death and all of his friends"
Ao entrar na sala onde os pacientes recebem a medicação intravenosa revi e lembrei-me daqueles rostos familiares, médicos e enfermeiros. Eu -em um processo unilateral- os reconheci. Por parte deles, eu era mais um estranho: talvez um acompanhante em busca de algum paciente ou simplesmente alguém que quisesse saber onde era o banheiro.
Uma sensação incômoda tomou conta de mim. Senti-me traído. Como se naquele momento, tivesse assumido a pessoa de minha avó frente àquelas pessoas: enquanto eu, "morta", tinha abandonado essa vida depois de muita dor e sofrimento, ali, para aquelas pessoas que propuseram me salvar, tudo continuava igual: os mesmos medicamentos, a mesma rotina, mais pacientes, mais casos. Senti-me traído. Estavam todos ali, trabalhando normalmente, alguns já prontos para o almoço, outros, chegando para assumir seus postos. Não entendo ao certo o porque, mas o que senti foi a dor de uma traição. Lágrimas vieram aos olhos.
Quando rapidamente deixei o lugar, um mal estar tomou conta de meu corpo. A sensação de traição continua e vem à tona quando lembro-me daqueles rostos sorridentes, e da dor de minha avó. Talvez se não nos propuséssemos a à qualquer custo prolongar a vida, e mais, a acreditar que a vida deve ser prolongada, sentissemos menos dor; talvez não sobraria estado para a sensação da traição cometida por aqueles que não conseguem salvar uma vida, esses que falham.
30 de janeiro de 2010
Por baixo do fino véu
30/01/2010 - 17h47
Exército dos EUA anuncia suspensão de voos com feridos haitianos
da France Presse, em Washington
da Folha Online
O Exército americano confirmou neste sábado a suspensão dos voos de retirada de haitianos gravemente feridos durante o terremoto de 12 de janeiro, enquanto aguarda uma decisão sobre quem se encarregará das despesas com o tratamento deles nos Estados Unidos.
"Cancelamos temporariamente esses voos de retirada de haitianos, mas temos meios de retomá-los", afirmou o capitão Kevin Aandahl, porta-voz da Transcom, a unidade de gestão dos transportes do Pentágono, em correspondência enviada à France Presse.
A informação corrobora uma notícia divulgada neste sábado pelo jornal "The New York Times".
Citando fontes militares, o jornal informa que os voos militares com pessoas atingidas na coluna, com queimaduras e outros ferimentos graves foram interrompidos na quarta-feira (27) passada depois que o governador da Flórida, Charlie Crist, pediu apoio do governo federal para pagar pelos cuidados das vítimas do terremoto.
Até agora, os hospitais da Flórida trataram mais de 500 pessoas, incluindo um menino resgatado dos escombros com o crânio e várias costelas quebradas.
Os voos para outros Estados que recebiam pacientes haitianos também foram suspensos.
O cancelamento poderá ser catastrófico para os pacientes, segundo Berth Green, um dos fundadores do Projeto Medishare para o Haiti, uma organização sem fins lucrativos associada à Miller School of Medicine da Universidade de Miami, que realiza as retiradas de feridos.
Crist não especificou o quanto custa à Flórida o serviço médico oferecido, mas, segundo ele, o número e a complexidade dos casos eleva a cifra a vários milhões de dólares.
O gasto imprevisto ocorre em um mau momento econômico para a Flórida.
Tragédia
O terremoto aconteceu às 16h53 do último dia 12 (19h53 no horário de Brasília) e teve epicentro a 15 quilômetros de Porto Príncipe, que ficou virtualmente devastada. O Palácio Nacional e a maioria dos prédios oficiais desabaram. O mesmo aconteceu na sede da Minustah, missão de paz da ONU, liderada militarmente pelo Brasil.
Ainda não há um dado preciso do total de mortos. O balanço das Nações Unidas divulgado nesta segunda-feira indica um total de 112.250 mortos e outros 194 mil feridos. Já o governo haitiano confirmou neste domingo que o número de mortos no país já atingiu 150 mil somente na região metropolitana de Porto Príncipe.
Entre os brasileiros, 21 morreram, sendo 18 militares e três civis --a brasileira Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, o chefe-adjunto civil da missão da ONU no Haiti, Luiz Carlos da Costa, e uma brasileira com dupla-cidadania europeia que não teve a identidade divulgada a pedido da família.
25 de janeiro de 2010
Desabafo
Sobre falar ou escrever, ainda, desabafar, é que precisamos aprender. Porque palavras estão ai, trata-se do o que mais ouvimos e lemos. Vivemos em um espaço que antes, é dominado pelas letras e suas associações. Sinceros desabafos, que sufocados rompam a barreira do silêncio, da moral e do corpo é do que precisamos. Nos sentimos (e ignore sua presença nessa primeira pessoa do plural se não lhe convém) tão livres e ao mesmo tempo tão presos que o sufoco é a medida do desabafo. É uma solidão silenciosa, um tentar resolver sem solução, um desabafo.
2 de dezembro de 2009
Sobre como se perceber observado - e se aterrorizar
A conversa seguia; o suco chegou, depois o lanche, na sequência o mal estar.
Algo não estava bem. E tinha a ver com o queijo e com o ovo do americano, ele sabia. Não que sua companhia tivesse em algum momento deixado transparecer algum tipo de intolerância quanto ao consumo daqueles produtos após um dia de discussões sobre como precisamos repensar isso; muito pelo contrário, dentre os que conhecia que abstinham-se do consumo total de produtos de origem animal, esse que dividia com ele a mesa, era dos mais tranquilos. Sabia que naquele momento a nenhuma conclusão chegaria, deixou então que a conversa seguisse seu rumo, e comeu o americano com queijo e ovo.
Conta paga, passos em direção ao carro, o americano parecia vivo no estômago. Algo de fato não estava bem. No quarto emprestado por um amigo para o pernoite, se colocou a pensar sobre a situação. E aí, uma conclusão.
Dois ou três dias antes, conversava com outro amigo, sobre todas essas questões tristes da exploração, da exploração dos não humanos, de que maneira, sentia-se irritado e intolerante com aqueles que, apesar de 'enxergarem' o problema, nada faziam, queria dizer, não deixavam de consumir carne. E, bingo!
Por inúmeras vezes, esteve na posição do seu camarada de causa na mesa do bar na Augusta. Na posição daquele que, vê algo que não concorda ser executado, porém tolera em nome de outras coisas. Uma tolerância que no seu caso, na conversa de dois dias antes, com seu outro amigo, já mostrava-se bastante desgastada. Sentiu então que estava na posição exata desses que enxergam o problema mas nada fazem: [no seu caso] concordar que galinhas e vacas são exploradas para a produção de leite e ovos e ao mesmo tempo comer um americano com queijo e ovo, mostrava-se claramente, no mínimo, incoerente. E ali, naquele momento de reflexão não houve recurso à cultura, à diversidade cultural, abordagem antropológica, que conseguisse fazê-lo mudar de idéia. Sentiu-se no lugar do outro, do outro que inúmeras vezes criticou. E por que? O que o fez nesse momento, na mesa do bar, sentir isso? Foi o olhar que estava dirigido a ele e ao seu lanche: o olhar do camarada de causa que, sem falar nada, disse tudo. Esse era o seu olhar em outros olhos. Foi observado por suas idéias. Isso o aterrorizou.
Ponderou mudar de atitude com relação ao seu consumo de queijos e ovos. O fará. A partir do próximo nascer do sol.
3 de novembro de 2009
Claude Lévi-Strauss
Não posso dizer que sinto profundamente a morte de Lévi-Strauss.
Todos morrem um dia. E a expectativa da morte aumenta proporcionalmente aos anos vividos; chegar aos 100 anos é mais do que nada, esperar dia após dia o último dia. Talvez para ele, a morte tenha sido um descanso merecido. O que mais sinto é que perdemos um dos maiores intelectuais de todos os tempos, que escolheu a antropologia para pensar e criticar o homem e as relações que mantem entre si, e com todo o ambiente em que vive. Lévi-Strauss sempre foi muito mais do que as 'rígidas' estruturas a que deu vida. Seu pensamento de caráter plural, muitas vezes mal interpretado, traz à tona desde o início do século XX, problemas que dizem respeito às relações humanas, meio ambiente, relações com os animais.
E essa é minha homenagem a ele.
Para lembrá-lo, apresento os trechos abaixo, importantes para mim, que (1) foram extraídos da entrevista concedida à revista Cult (ano 10, número 110) e (2) constam em seu artigo "A lição de sabedoria das vacas loucas". Dois textos recentes, que mostram plena serenidade e lucidez, de um pensador que já contava mais de 90 anos.
(1)
Eu desejo ardentemente que as autoridades brasileiras se interessem por eles [índios nambikwara] e que deem meios para que cada grupo indígena possa prosseguir vivendo de forma independente. Evidentemente que não será da forma tradicional que eles viviam antes e que eu presenciei, mas, em todo caso, é preciso permitir-lhes escolher livremente entre o que eles querem conservar de suas tradições e de suas formas de vida e o que eles querem emprestar da cultura ocidental.
...
A questão que dominava verdadeiramente meu pensamento há muito tempo - e ainda mais nos dias de hoje - é que quando eu nasci havia 1,5 bilhão de habitantes sobre a Terra. Quando entrei para a vida ativa profissional e fui morar com os bororo e os nambikwara, dois bilhões, e agora há seis bilhões. Em poucos anos, serão oito ou nove. Aos meus olhos, esse é o problema fundamental do futuro da humanidade e, pessoalmente - embora isso não tenha importância porque eu não estarei mais aqui - , eu não vejo muito esperança para um mundo assim tão cheio.
(2)
Pode-se dizer que ainda hoje temos certa consciência daquela solidariedade primeira entre todas as formas de vida. Buscamos imprimir o sentimento dessa continuidade no espírito de nossas crianças desde cedo: nós as cercamos de simulacros de animais em borracha ou em pelúcia, e os primeiros livros de figuras que colocamos sob seus olhos lhes mostram o urso, o elefante, o cavalo, o asno, o cão, o gato, a galinha, o rato, o coelho etc. muito antes que elas os deparem realmente, como se devêssemos dar-lhes desde a mais tenra idade a nostalgia de uma unidade que logo saberão rompida.
...
O vínculo entre alimentação carnívora e um canibalismo ampliado tem conotação talvez universal e, assim, raízes muito profundas no pensamento. Ele vem ao primeiro plano com a epidemia das vacas loucas, uma vez que ao pavor de contrair uma doença letal se soma o
horror que tradicionalmente nos inspira o canibalismo, ora extensivo aos bovinos. Condicionados desde a primeira infância, decerto permanecemos carnívoros e buscamos carnes substitutivas. Não é de menos, portanto, que o consumo de carne tenha diminuído de forma espetacular: bem antes desses eventos, quantos de nós passaríamos diante de um açougue e experimentaríamos mal-estar ao vê-lo sob a ótica antecipada dos séculos vindouros? Pois dia virá em que a idéia de que os homens do passado criavam e massacravam seres vivos para se alimentar e complacentemente expunham sua carne aos pedaços em
vitrines inspirará a mesma repulsa que os repastos canibais dos selvagens da América, da Oceania e da África despertavam nos viajantes dos séculos XVI e XVII.
...
Foi um belo fim de vida.
2 de novembro de 2009
IV Semana Vegetariana da Unicamp

De 09 a 13 de novembro na Unicamp. A partir da perspectiva dos direitos dos animais, o vegetarianismo é abordado de diversas maneiras, em palestras, mesas de discussões e atividades de lazer. No blog do evento tem a programação completa. Divulgue, participe, leve os amigos!
É, fantástico...
O ato de barbárie, exige investigação e punição de culpados. A violência de gênero foi explícita: a violência ali, ultrapassou o corpo da moça. Foi contra as mulheres.
Mas, tudo isso tem sido discutido e felizmente a maioria das pessoas chega a essa conclusão quando lê as linhas das notícias. Mas, há os que contra o bom senso (e a favor de uma moral ultra conservadora), preferem extrapolar. Falo do Fantástico, da Rede Globo e da maneira como abordou a questão na edição do último domingo.
Esperava-se no mínimo uma discussão sobre a violência de gênero sofrida pelas mulheres. Pois bem sabemos, se fosse um homem com uma roupa curta, essa caça à bruxa não teria ocorrido. Mas para nossa surpresa (ou não...) o Fantástico preferiu abordar o assunto como se tratasse de sugerir onde e que tipo de roupa usar, e para tanto, chamou para falar sobre o ato de violência, barbárie, a 'consultora de moda' (!) Glorinha Kalil, que jogou nas costas da moça a culpa, devido à inadequação de seu traje naquele momento. Glorinha diz depois, que nada justifica tal violência. Mas o peso de sua primeira declaração, para mim, anula qualquer boa intenção em sua análise:
“Quando a gente põe uma roupa errada, a roupa que não combinou com o lugar que a gente foi, a gente acaba sendo lida de uma maneira que não era a que a gente gostaria. Foi o que aconteceu aqui. Olha, nada, mas nada mesmo, justifica a agressão que essa moça sofreu.”
Estou ficando paranóico? Porque, se chegamos ao ponto, de aceitarmos passivamente que veículos da 'grande' mídia afirmem em entrelinhas através da fala de uma 'especialista' em etiqueta, que um vestido curto é motivo para recriminação e violência moral, chegamos ao ponto de entregar os pontos. Apagar a luz, sair e fechar a porta.
O problema para mim não está no que disse a 'consultora de moda', mas na idéia que o conjunto da matéria representa. E o que eles quiseram dizer foi claramente isso: a moça estava errada; essa roupa, não é roupa para frequentar círculos sociais 'decentes', muito menos, roupa de uma mulher 'digna' usar; logo, a violência está justificada.
É mole?
É, fantástico...





