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8 de dezembro de 2010

O bom-dia e a estética-do-viver

Diariamente oferece alguns bons-dias sem esperar muito em troca. Não que tenha se acostumado à tradicional falta de humor que as pessoas tornam-se em grandes cidades, também pudera, são buzinas, fumaças, sirenes e trombadas já pela manhã, mas porque tem a continua impressão de que as pessoas, aqueles conhecidos (não os amigos, aqueles outros, que se veem diariamente e por causa disso mesmo, dessa repetição diária de contato visual sem maiores expectativas, tem suas caras umas gravadas nas mentes das outras), não se reconhecem. Não sabe explicar de onde vem essa sensação, o que sabe, é que não repondem ao cumprimento o que muitas vezes, faz com que ele mesmo, não dê partida à cortesia.

E hoje, que surpresa. Ao descer do ônibus, depois de um saldo de cinquenta por cento de sucesso nos bons-dias até então oferecidos, sendo o motorista o responsável pela metade perdida e o cobrador o responsável pela metade ganha, eis que desce e aproxima-se da barraquinha da moça que vende café na calçada do hospital, prepara-se para o próximo bom-dia quando percebe, ela, num movimento rápido, antes das palavras saltarem da sua boca, abre o pote onde ficam os copos plásticos em que serve o café, saca um, posiciona-o abaixo da saída da garrafa e aciona o sistema de vácuo que faz-lo jorrar. Ela serve o café, bom-dia, ele diz. O bom-dia saiu assim, chocho, pois do espanto, não foi um desses bons-dias, do tipo "bom-dia!!!", foi um bom-dia do tipo "bom-dia…", e foi mesmo assim desconfiado e com reticências, porque antes de dizer o que queria, antes do bom-dia deixar de ser intenção e ser um bom-dia de fato, ela já tinha servido o quente e necessário cafézinho (e é importante saber, ela não vendia só café, haviam ali bolos variados, doces, leite e o brasileiríssimo, digo mineiríssimo, pão de queijo, poderia ele escolher qualquer uma dessas quitandas, como se diz lá em Minas, mas não, sabia ela que ele queria era o café, só o café, e esse de um real, porque tem também ali na barraquinha o de cinquenta centavos, metade do volume, o que não provê cafeína nem para passar o sono, menos ainda para as leituras densas e empoeiradas que tem feito), o que vem provar que, a moça se lembrava dele, de todas as outras vezes em que ele tinha por ali passado, de todos os outros bons-dias que havia dado e de todos os outros cafés de um real que havia comprado. Isso o fez pensar, que também talvez, todas aquelas pessoas conhecidas, não os amigos, os outros do caminho, e de diversos outros caminhos, porque o que mais temos na vida são caminhos e pessoas percorridos diariamente, também se lembrem dele, do mesmo jeito que ele se lembra delas, o que causa maior inquietação porque patente fica que ambos dão-se ao mesmo desagradável hábito: não se bom-diam-se, porque pensam, não lembram-se um do outro.

Essa sensação foi confirmada, após ela responder o bom-dia alegremente, não um "bom-dia…", mas um "bom-dia!!!". Ela só não se lembrou que o café que ele bebe, é sem açúcar (também pudera, não se pode lembrar de tudo a todo momento nessa vida), se fosse uísque, seria do tipo "cowboy", mas é café, só água muito quente e café, puro. Quando ela aproximou a colher do pote do doce e branco ganulado, foi lembrada: "o meu é sem açúcar", ele disse, espanto novamente, disse a moça: "ah! verdade, sem açúcar, sempre esqueço que o seu é sem açúcar, igual o do meu marido, do meu irmão, eles também bebem assim, como você, sem açúcar…" (vejam só, ele de repente, na mesma sentença que seus parentes mais íntimos, o filho da sogra e o outro filho da mãe, e ele, sabe-se lá filho de quem, ligados por essa preferência da amarguez do café, o que vem mostrar também que sim, ela se lembrou dele, afinal, não iria colocá-lo na mesma categoria de preferências amarguísticas que seus familiares se fosse um total estranho. É preciso mínima intimidade para adentrar um lar. Esse "sempre", foi confirmar: ela sabe quem ele é, não exatamente quem ele é no sentido de saber onde e de que corpos nascera, de onde vem, se é de deus ou do diabo, o que faz, se gosta de mulher, de homem, ou dos dois, se é casado e tem filhos, se gosta de futebol, e sendo sim a resposta, se torce pro Corinthians, Palmeiras ou São Paulo, sendo não, "que estranho, não gostar de futebol", essas coisas que todo mundo gosta de saber sobre tudo mundo. Sabe ela, quem ele é, porque ele é diariamente, aquele que desce do ônibus vermelho, vira a esquina e pede um café de um real (sem açúcar). Aquele que dá um bom-dia, sem muito esperar em troca. Talvez desconfiado, talvez medroso, talvez confuso, talvez ela pense “que raios de bom-dia é esse”, diariamente confuso, por antes estar medroso, desconfiado, com o que não sabe, com a vida talvez, essas coisas metafísicas e existenciais, por que não psicológicas, que tiram o sossego de qualquer um humano.

Mas hoje sobrou um pouco de clareza, da certeza, de que a confusão talvez nem exista de fato, ou pelo menos, diferente de existir, assim, substancialmente existência, seria mais algo que se faz questão de manter, como essas linhas penduradas nas barras ou mangas das camisas, que um puxão com pouca força já dá conta de resolver a questão estética e pendente. Entrou no parque, continuou a leitura do romance enquanto terminava o café de um real puro (puro o café, não o real, porque todo dinheiro é sujo, se não na sujeira que das mãos passam ao papel ou ao metal da moeda, na sujeira de ser mesmo dinheiro em si) com a certeza de que amanhã se tudo der certo, pelo menos um bom-dia sabe que ouvirá, um "bom-dia!!!", não um "bom-dia…", com o que, abraçará a moça do café, dirá ter sentido saudades, menos, o “bom-dia!!!” em resposta basta.

É preciso coragem para dar um bom-dia, porque cada bom-dia por simples que pareça é invasão, é um enfrentamento; é preciso coragem para responder a um bom-dia, porque cada bom-dia respondido, é um doar-se, é deixar ir um pouco de si e aceitar um teco do outro. É troca e como troca é, será também, se sucesso tiver a empreitada, uma dádiva, pra encerrar a coisa assim com um tom de antropologia. E como servir um café antes do bom-dia sair, põe tantas engrenagens mentais, simbólicas, psicológicas e metafísicas a se engrenarem e roçarem-se umas nas outras, ele já tem uma lição desse dia, se fosse um daqueles contos infantis, a tal da “moral da história” seria, puxar com mais força e coragem e quebrar essas linhas, coisas penduradas, linhas-coisas-penduradas escreveria o Latour, pois gosta dos hífens como ninguém, que talvez nem existam mas estragam a estética-do-viver.


3 de novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss


Lévi-Strauss, 28/11/1908 - 31/10/2009


Não posso dizer que sinto profundamente a morte de Lévi-Strauss.
Todos morrem um dia. E a expectativa da morte aumenta proporcionalmente aos anos vividos; chegar aos 100 anos é mais do que nada, esperar dia após dia o último dia. Talvez para ele, a morte tenha sido um descanso merecido. O que mais sinto é que perdemos um dos maiores intelectuais de todos os tempos, que escolheu a antropologia para pensar e criticar o homem e as relações que mantem entre si, e com todo o ambiente em que vive. Lévi-Strauss sempre foi muito mais do que as 'rígidas' estruturas a que deu vida. Seu pensamento de caráter plural, muitas vezes mal interpretado, traz à tona desde o início do século XX, problemas que dizem respeito às relações humanas, meio ambiente, relações com os animais.

E essa é minha homenagem a ele.

Para lembrá-lo, apresento os trechos abaixo, importantes para mim, que (1) foram extraídos da entrevista concedida à revista Cult (ano 10, número 110) e (2) constam em seu artigo "A lição de sabedoria das vacas loucas". Dois textos recentes, que mostram plena serenidade e lucidez, de um pensador que já contava mais de 90 anos.

(1)

Eu desejo ardentemente que as autoridades brasileiras se interessem por eles [índios nambikwara] e que deem meios para que cada grupo indígena possa prosseguir vivendo de forma independente. Evidentemente que não será da forma tradicional que eles viviam antes e que eu presenciei, mas, em todo caso, é preciso permitir-lhes escolher livremente entre o que eles querem conservar de suas tradições e de suas formas de vida e o que eles querem emprestar da cultura ocidental.

...

A questão que dominava verdadeiramente meu pensamento há muito tempo - e ainda mais nos dias de hoje - é que quando eu nasci havia 1,5 bilhão de habitantes sobre a Terra. Quando entrei para a vida ativa profissional e fui morar com os bororo e os nambikwara, dois bilhões, e agora há seis bilhões. Em poucos anos, serão oito ou nove. Aos meus olhos, esse é o problema fundamental do futuro da humanidade e, pessoalmente - embora isso não tenha importância porque eu não estarei mais aqui - , eu não vejo muito esperança para um mundo assim tão cheio.

(2)

Pode-se dizer que ainda hoje temos certa consciência daquela solidariedade primeira entre todas as formas de vida. Buscamos imprimir o sentimento dessa continuidade no espírito de nossas crianças desde cedo: nós as cercamos de simulacros de animais em borracha ou em pelúcia, e os primeiros livros de figuras que colocamos sob seus olhos lhes mostram o urso, o elefante, o cavalo, o asno, o cão, o gato, a galinha, o rato, o coelho etc. muito antes que elas os deparem realmente, como se devêssemos dar-lhes desde a mais tenra idade a nostalgia de uma unidade que logo saberão rompida.

...

O vínculo entre alimentação carnívora e um canibalismo ampliado tem conotação talvez universal e, assim, raízes muito profundas no pensamento. Ele vem ao primeiro plano com a epidemia das vacas loucas, uma vez que ao pavor de contrair uma doença letal se soma o
horror que tradicionalmente nos inspira o canibalismo, ora extensivo aos bovinos. Condicionados desde a primeira infância, decerto permanecemos carnívoros e buscamos carnes substitutivas. Não é de menos, portanto, que o consumo de carne tenha diminuído de forma espetacular: bem antes desses eventos, quantos de nós passaríamos diante de um açougue e experimentaríamos mal-estar ao vê-lo sob a ótica antecipada dos séculos vindouros? Pois dia virá em que a idéia de que os homens do passado criavam e massacravam seres vivos para se alimentar e complacentemente expunham sua carne aos pedaços em
vitrines inspirará a mesma repulsa que os repastos canibais dos selvagens da América, da Oceania e da África despertavam nos viajantes dos séculos XVI e XVII.
...


Foi um belo fim de vida.

2 de novembro de 2009

É, fantástico...

Foi notícia nos jornais dessa semana o caso da garota que foi violentada moralmente na universidade Uniban, em que estuda turismo, em São Bernardo do Campo, pelo fato de ter ido à aula com um vestido curto.

O ato de barbárie, exige investigação e punição de culpados. A violência de gênero foi explícita: a violência ali, ultrapassou o corpo da moça. Foi contra as mulheres.

Mas, tudo isso tem sido discutido e felizmente a maioria das pessoas chega a essa conclusão quando lê as linhas das notícias. Mas, há os que contra o bom senso (e a favor de uma moral ultra conservadora), preferem extrapolar. Falo do Fantástico, da Rede Globo e da maneira como abordou a questão na edição do último domingo.

Esperava-se no mínimo uma discussão sobre a violência de gênero sofrida pelas mulheres. Pois bem sabemos, se fosse um homem com uma roupa curta, essa caça à bruxa não teria ocorrido. Mas para nossa surpresa (ou não...) o Fantástico preferiu abordar o assunto como se tratasse de sugerir onde e que tipo de roupa usar, e para tanto, chamou para falar sobre o ato de violência, barbárie, a 'consultora de moda' (!) Glorinha Kalil, que jogou nas costas da moça a culpa, devido à inadequação de seu traje naquele momento. Glorinha diz depois, que nada justifica tal violência. Mas o peso de sua primeira declaração, para mim, anula qualquer boa intenção em sua análise:

“Quando a gente põe uma roupa errada, a roupa que não combinou com o lugar que a gente foi, a gente acaba sendo lida de uma maneira que não era a que a gente gostaria. Foi o que aconteceu aqui. Olha, nada, mas nada mesmo, justifica a agressão que essa moça sofreu.”

Estou ficando paranóico? Porque, se chegamos ao ponto, de aceitarmos passivamente que veículos da 'grande' mídia afirmem em entrelinhas através da fala de uma 'especialista' em etiqueta, que um vestido curto é motivo para recriminação e violência moral, chegamos ao ponto de entregar os pontos. Apagar a luz, sair e fechar a porta.

O problema para mim não está no que disse a 'consultora de moda', mas na idéia que o conjunto da matéria representa. E o que eles quiseram dizer foi claramente isso: a moça estava errada; essa roupa, não é roupa para frequentar círculos sociais 'decentes', muito menos, roupa de uma mulher 'digna' usar; logo, a violência está justificada.

É mole?
É, fantástico...

1 de novembro de 2009

Ciclo

O ciclo é um tipo de medida: é cercar alguma coisa em uma linha temporal, atribuir o início, o fim. É invenção. O dia é um ciclo. Antes, é um 'subir'e 'descer' do sol. Se criado é, como pois, se repete? Existe algo - sim, algumas essências existem -, um movimento, para o qual lançamos o olhar, e então atribuímos números, códigos, nomes. Algo que acontece sempre independente do (melhor: desse ou daquele) olhar. Algo que se repete nas mais variadas situações. É difícil de entender (ok, aceitar). Mas há uma vantagem na repetição: conhecido o caminho, pode-se aplicar um tipo de manipulação. E talvez as coisas, sejam diferentes. E o final, feliz.