. Eu gosto de sebos. Gosto de 'caçar' coisas naquele mundo já vivido, já experimentado. E depois, chegar em casa e lavar as mãos, e ver a água cinza, sujeira do tempo, água cinza, impregnada de histórias.
. Eu gosto de brechós e de roupas que já viveram outras coisas que a vida na fábrica, que já sentiram outras mãos, que as mãos das costureiras, outros corpos que os dos manequins; que já foram a festas e receberam entre seus fios vinho, cerveja, saliva, sexo. Roupas que contém e contam histórias.
. Eu gosto de discos de vinil de sebos. Gosto de sentí-los, de tê-los nas mãos, de sentir o peso da arte. Gosto de procurar por riscos, com cuidado, segurando pelas bordas. Gosto de soprá-los pra tirar a poeira, pra deixá-los limpos. E gosto das dedicatórias nas capas, a marca do tempo. É comprar o Travessia, do Milton Nascimento por 4 reais, e como brinde de valor inestimável, ganhar a inscrição à mão, em caneta azul, na contracapa:
"Para você que agora está atravessando uma fase da vida, nada mais de acordo do que o exemplo de alguém que fez e faz uma maravilhosa 'Travessia'. Toda a felicidade do mundo prá você.
Monique
28-04-79"
É ler isso, e pensar, quem é Monique, quem, antes de eu nascer escreveu algo, que hoje, é para mim? Quem diria, Monique, sem te saber, sem te ver, você me tem algo a dizer. É agradecer: obrigado Monique! Amei o presente.
"Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida... preciso demais desabafar." O que penso, o que sinto, acima de tudo o que não consigo calar.
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2 de outubro de 2009
23 de julho de 2009
Veni, vidi, vici* -tempo mano velho...
Encontrei a avó alegre, sorridente. Considerando as mazelas pela velhinha sofridas nos últimos dias, poderia afirmar que nada acontecera. Nada mesmo. Nem o tombo que lhe rasgara a fina pele das pernas, nem os ataques de insuficiência respiratória, nem as dores causadas por um coração com vasos entupidos, nem a internação na UTI, nada. Tomou as bisnetas no colo, fez carinhos, pediu fotos. Era a alegria em forma de gente. Uma beleza!
Sobre as possibilidades de tratamento da insuficiência respiratória (que agora sabia-se era causada pelo entupimento de importante vaso do coração), ou melhor, sobre a complexa possibilidade que reduzia o sucesso da cirurgia a algo em torno de dez por cento, no outro dia, na capital do estado, quem daria o veredicto era um importante médico cardiologista. Tal médico, que desentupira vasos sanguíneos de gentes importantes país afora, e até nos tratamentos do falecido último papa havia dado pitacos, animado com os dez por cento de sucesso, ou, talvez com sua experiência técnico-científica ao perceber um alargamento dessa porcentagem, disse: opera.
Daqui para frente, não tenho o que dizer, fazer, a não ser torcer para que dê tudo certo; se fosse cristão chamaria uns santos em auxílio, mas não é o caso. A cirurgia de desentupimento do coração desta vózinha (por sinal, minha última parente viva dessa linha que dá origem aos nossos pais), é amanhã.
Aí o leitor se pergunta, mas e o tempo anunciado no título, que tem a ver com o coração da vózinha e suas veias entupidas? Com razão dou motivo para o questionamento, ainda não entrei nesse assunto, mas aqui vou eu.
Durante a visita, aquela que ocorrera no primeiro parágrafo, questionada por mim sobre as possibilidades do tratamento, de uma possível cirurgia, e de tudo mais, alegremente a velhinha disse:
-Se der pra desentupir, ótimo! Se não der, tudo bem! Aí vou levando, com um "piripaque" aqui, mais um, outro mais além, até...
"até..."
A reticências está em negrito não à toa. É que está ali, disfarçada na forma de três bolinhas, a compreensão de vida que faz uma pessoa aceitar que já viveu o suficiente, bem, de um modo geral, com os altos e baixos que fazem parte do pacote, os sofrimentos e alegrias, e está preparada para o "até...". Até o que? Até o "piripaque" final, o fatal, aquele do qual ninguém volta pra contar como foi.
E o que me fez pensar em tempo, em vida, satisfação, em carpe diem, foi a risada gostosa que a velhinha soltou depois do "até...".
Ela disse, nas entrelinhas dos pontinhos da reticências: "Então, estou pronta! O que vier é lucro, e se não vier, fiquem bem vocês! 87 é um bom tanto de anos, meus amores. Criei a molecada, vi eles, homens e mulheres, terem seus filhos e netos, fiz doces e bolos para todos, fui feliz. Meu velho se foi tem um tempo e eu vou indo atrás, dia após dia. Estou bem. Satisfeita, feliz e pronta."
Foi assim que eu entendi aquela alegria toda frente à tantas coisas ruins.
É, é uma lição!
Boa sorte, vózinha.
Sobre as possibilidades de tratamento da insuficiência respiratória (que agora sabia-se era causada pelo entupimento de importante vaso do coração), ou melhor, sobre a complexa possibilidade que reduzia o sucesso da cirurgia a algo em torno de dez por cento, no outro dia, na capital do estado, quem daria o veredicto era um importante médico cardiologista. Tal médico, que desentupira vasos sanguíneos de gentes importantes país afora, e até nos tratamentos do falecido último papa havia dado pitacos, animado com os dez por cento de sucesso, ou, talvez com sua experiência técnico-científica ao perceber um alargamento dessa porcentagem, disse: opera.
Daqui para frente, não tenho o que dizer, fazer, a não ser torcer para que dê tudo certo; se fosse cristão chamaria uns santos em auxílio, mas não é o caso. A cirurgia de desentupimento do coração desta vózinha (por sinal, minha última parente viva dessa linha que dá origem aos nossos pais), é amanhã.
Aí o leitor se pergunta, mas e o tempo anunciado no título, que tem a ver com o coração da vózinha e suas veias entupidas? Com razão dou motivo para o questionamento, ainda não entrei nesse assunto, mas aqui vou eu.
Durante a visita, aquela que ocorrera no primeiro parágrafo, questionada por mim sobre as possibilidades do tratamento, de uma possível cirurgia, e de tudo mais, alegremente a velhinha disse:
-Se der pra desentupir, ótimo! Se não der, tudo bem! Aí vou levando, com um "piripaque" aqui, mais um, outro mais além, até...
"até..."
A reticências está em negrito não à toa. É que está ali, disfarçada na forma de três bolinhas, a compreensão de vida que faz uma pessoa aceitar que já viveu o suficiente, bem, de um modo geral, com os altos e baixos que fazem parte do pacote, os sofrimentos e alegrias, e está preparada para o "até...". Até o que? Até o "piripaque" final, o fatal, aquele do qual ninguém volta pra contar como foi.
E o que me fez pensar em tempo, em vida, satisfação, em carpe diem, foi a risada gostosa que a velhinha soltou depois do "até...".
Ela disse, nas entrelinhas dos pontinhos da reticências: "Então, estou pronta! O que vier é lucro, e se não vier, fiquem bem vocês! 87 é um bom tanto de anos, meus amores. Criei a molecada, vi eles, homens e mulheres, terem seus filhos e netos, fiz doces e bolos para todos, fui feliz. Meu velho se foi tem um tempo e eu vou indo atrás, dia após dia. Estou bem. Satisfeita, feliz e pronta."
Foi assim que eu entendi aquela alegria toda frente à tantas coisas ruins.
É, é uma lição!
Boa sorte, vózinha.
21 de julho de 2009
De par em par
No início dos vinte anos, foi ele em busca de uma terapeuta que lhe indicasse uns florais para aliviar o estresse de um trabalho enfadante; durante a consulta, pergunta vai, pergunta vem, surgiu na conversa sua preocupação com a passagem do tempo. O cara disse:
- Sinto que o tempo vai pular, sei la, de dez em dez anos, e quando eu ver, já estarei com 30, 40, sem perceber... Entende?
Ela, utilizando do conhecimento técnico-científico das coisas da vida que sua profissão de terapeuta em florais de Bach trazia (ou simplesmente usando a situação para fazer uma auto-negação), disse:
- Não se preocupe com isso! Não é assim, você verá, tudo ocorrerá ao seu tempo, essa sensação não existe...
Receitou lá uns florais, deu umas dicas e marcou um retorno que nunca aconteceu.
Ela estava errada. Foi examente como as preocupações dele apontaram. A vida tem andado em saltos e os dias em blocos, me disse.
Lembrou-me do Cazuza: "... as vezes os meus dias são de par em par".
Me disse também que tem se sentido culpado por não perceber o tempo passar. Parece estar sentado na cadeira de um cinema esperando um filme chato acabar, à espera dos créditos e da luz para ir embora.
- Sinto que o tempo vai pular, sei la, de dez em dez anos, e quando eu ver, já estarei com 30, 40, sem perceber... Entende?
Ela, utilizando do conhecimento técnico-científico das coisas da vida que sua profissão de terapeuta em florais de Bach trazia (ou simplesmente usando a situação para fazer uma auto-negação), disse:
- Não se preocupe com isso! Não é assim, você verá, tudo ocorrerá ao seu tempo, essa sensação não existe...
Receitou lá uns florais, deu umas dicas e marcou um retorno que nunca aconteceu.
Ela estava errada. Foi examente como as preocupações dele apontaram. A vida tem andado em saltos e os dias em blocos, me disse.
Lembrou-me do Cazuza: "... as vezes os meus dias são de par em par".
Me disse também que tem se sentido culpado por não perceber o tempo passar. Parece estar sentado na cadeira de um cinema esperando um filme chato acabar, à espera dos créditos e da luz para ir embora.
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