Foi após um dia de discussões sobre direitos de animais não humanos, ou melhor, da violação a direitos já garantidos, que resolveu comer algo em um bar qualquer da rua Augusta, na companhia de um camarada da causa. Pediu então um suco de laranja e um americano (não sem antes perguntar ao garçom, o que 'vinha' no lanche; após a lista dos ingredientes, eles, pão francês, presunto, ovo, queijo, alface e tomate, pediu então que fosse subtraído o presunto).
A conversa seguia; o suco chegou, depois o lanche, na sequência o mal estar.
Algo não estava bem. E tinha a ver com o queijo e com o ovo do americano, ele sabia. Não que sua companhia tivesse em algum momento deixado transparecer algum tipo de intolerância quanto ao consumo daqueles produtos após um dia de discussões sobre como precisamos repensar isso; muito pelo contrário, dentre os que conhecia que abstinham-se do consumo total de produtos de origem animal, esse que dividia com ele a mesa, era dos mais tranquilos. Sabia que naquele momento a nenhuma conclusão chegaria, deixou então que a conversa seguisse seu rumo, e comeu o americano com queijo e ovo.
Conta paga, passos em direção ao carro, o americano parecia vivo no estômago. Algo de fato não estava bem. No quarto emprestado por um amigo para o pernoite, se colocou a pensar sobre a situação. E aí, uma conclusão.
Dois ou três dias antes, conversava com outro amigo, sobre todas essas questões tristes da exploração, da exploração dos não humanos, de que maneira, sentia-se irritado e intolerante com aqueles que, apesar de 'enxergarem' o problema, nada faziam, queria dizer, não deixavam de consumir carne. E, bingo!
Por inúmeras vezes, esteve na posição do seu camarada de causa na mesa do bar na Augusta. Na posição daquele que, vê algo que não concorda ser executado, porém tolera em nome de outras coisas. Uma tolerância que no seu caso, na conversa de dois dias antes, com seu outro amigo, já mostrava-se bastante desgastada. Sentiu então que estava na posição exata desses que enxergam o problema mas nada fazem: [no seu caso] concordar que galinhas e vacas são exploradas para a produção de leite e ovos e ao mesmo tempo comer um americano com queijo e ovo, mostrava-se claramente, no mínimo, incoerente. E ali, naquele momento de reflexão não houve recurso à cultura, à diversidade cultural, abordagem antropológica, que conseguisse fazê-lo mudar de idéia. Sentiu-se no lugar do outro, do outro que inúmeras vezes criticou. E por que? O que o fez nesse momento, na mesa do bar, sentir isso? Foi o olhar que estava dirigido a ele e ao seu lanche: o olhar do camarada de causa que, sem falar nada, disse tudo. Esse era o seu olhar em outros olhos. Foi observado por suas idéias. Isso o aterrorizou.
Ponderou mudar de atitude com relação ao seu consumo de queijos e ovos. O fará. A partir do próximo nascer do sol.
"Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida... preciso demais desabafar." O que penso, o que sinto, acima de tudo o que não consigo calar.
2 de dezembro de 2009
3 de novembro de 2009
Claude Lévi-Strauss
Não posso dizer que sinto profundamente a morte de Lévi-Strauss.
Todos morrem um dia. E a expectativa da morte aumenta proporcionalmente aos anos vividos; chegar aos 100 anos é mais do que nada, esperar dia após dia o último dia. Talvez para ele, a morte tenha sido um descanso merecido. O que mais sinto é que perdemos um dos maiores intelectuais de todos os tempos, que escolheu a antropologia para pensar e criticar o homem e as relações que mantem entre si, e com todo o ambiente em que vive. Lévi-Strauss sempre foi muito mais do que as 'rígidas' estruturas a que deu vida. Seu pensamento de caráter plural, muitas vezes mal interpretado, traz à tona desde o início do século XX, problemas que dizem respeito às relações humanas, meio ambiente, relações com os animais.
E essa é minha homenagem a ele.
Para lembrá-lo, apresento os trechos abaixo, importantes para mim, que (1) foram extraídos da entrevista concedida à revista Cult (ano 10, número 110) e (2) constam em seu artigo "A lição de sabedoria das vacas loucas". Dois textos recentes, que mostram plena serenidade e lucidez, de um pensador que já contava mais de 90 anos.
(1)
Eu desejo ardentemente que as autoridades brasileiras se interessem por eles [índios nambikwara] e que deem meios para que cada grupo indígena possa prosseguir vivendo de forma independente. Evidentemente que não será da forma tradicional que eles viviam antes e que eu presenciei, mas, em todo caso, é preciso permitir-lhes escolher livremente entre o que eles querem conservar de suas tradições e de suas formas de vida e o que eles querem emprestar da cultura ocidental.
...
A questão que dominava verdadeiramente meu pensamento há muito tempo - e ainda mais nos dias de hoje - é que quando eu nasci havia 1,5 bilhão de habitantes sobre a Terra. Quando entrei para a vida ativa profissional e fui morar com os bororo e os nambikwara, dois bilhões, e agora há seis bilhões. Em poucos anos, serão oito ou nove. Aos meus olhos, esse é o problema fundamental do futuro da humanidade e, pessoalmente - embora isso não tenha importância porque eu não estarei mais aqui - , eu não vejo muito esperança para um mundo assim tão cheio.
(2)
Pode-se dizer que ainda hoje temos certa consciência daquela solidariedade primeira entre todas as formas de vida. Buscamos imprimir o sentimento dessa continuidade no espírito de nossas crianças desde cedo: nós as cercamos de simulacros de animais em borracha ou em pelúcia, e os primeiros livros de figuras que colocamos sob seus olhos lhes mostram o urso, o elefante, o cavalo, o asno, o cão, o gato, a galinha, o rato, o coelho etc. muito antes que elas os deparem realmente, como se devêssemos dar-lhes desde a mais tenra idade a nostalgia de uma unidade que logo saberão rompida.
...
O vínculo entre alimentação carnívora e um canibalismo ampliado tem conotação talvez universal e, assim, raízes muito profundas no pensamento. Ele vem ao primeiro plano com a epidemia das vacas loucas, uma vez que ao pavor de contrair uma doença letal se soma o
horror que tradicionalmente nos inspira o canibalismo, ora extensivo aos bovinos. Condicionados desde a primeira infância, decerto permanecemos carnívoros e buscamos carnes substitutivas. Não é de menos, portanto, que o consumo de carne tenha diminuído de forma espetacular: bem antes desses eventos, quantos de nós passaríamos diante de um açougue e experimentaríamos mal-estar ao vê-lo sob a ótica antecipada dos séculos vindouros? Pois dia virá em que a idéia de que os homens do passado criavam e massacravam seres vivos para se alimentar e complacentemente expunham sua carne aos pedaços em
vitrines inspirará a mesma repulsa que os repastos canibais dos selvagens da América, da Oceania e da África despertavam nos viajantes dos séculos XVI e XVII.
...
Foi um belo fim de vida.
2 de novembro de 2009
IV Semana Vegetariana da Unicamp

De 09 a 13 de novembro na Unicamp. A partir da perspectiva dos direitos dos animais, o vegetarianismo é abordado de diversas maneiras, em palestras, mesas de discussões e atividades de lazer. No blog do evento tem a programação completa. Divulgue, participe, leve os amigos!
É, fantástico...
Foi notícia nos jornais dessa semana o caso da garota que foi violentada moralmente na universidade Uniban, em que estuda turismo, em São Bernardo do Campo, pelo fato de ter ido à aula com um vestido curto.
O ato de barbárie, exige investigação e punição de culpados. A violência de gênero foi explícita: a violência ali, ultrapassou o corpo da moça. Foi contra as mulheres.
Mas, tudo isso tem sido discutido e felizmente a maioria das pessoas chega a essa conclusão quando lê as linhas das notícias. Mas, há os que contra o bom senso (e a favor de uma moral ultra conservadora), preferem extrapolar. Falo do Fantástico, da Rede Globo e da maneira como abordou a questão na edição do último domingo.
Esperava-se no mínimo uma discussão sobre a violência de gênero sofrida pelas mulheres. Pois bem sabemos, se fosse um homem com uma roupa curta, essa caça à bruxa não teria ocorrido. Mas para nossa surpresa (ou não...) o Fantástico preferiu abordar o assunto como se tratasse de sugerir onde e que tipo de roupa usar, e para tanto, chamou para falar sobre o ato de violência, barbárie, a 'consultora de moda' (!) Glorinha Kalil, que jogou nas costas da moça a culpa, devido à inadequação de seu traje naquele momento. Glorinha diz depois, que nada justifica tal violência. Mas o peso de sua primeira declaração, para mim, anula qualquer boa intenção em sua análise:
“Quando a gente põe uma roupa errada, a roupa que não combinou com o lugar que a gente foi, a gente acaba sendo lida de uma maneira que não era a que a gente gostaria. Foi o que aconteceu aqui. Olha, nada, mas nada mesmo, justifica a agressão que essa moça sofreu.”
Estou ficando paranóico? Porque, se chegamos ao ponto, de aceitarmos passivamente que veículos da 'grande' mídia afirmem em entrelinhas através da fala de uma 'especialista' em etiqueta, que um vestido curto é motivo para recriminação e violência moral, chegamos ao ponto de entregar os pontos. Apagar a luz, sair e fechar a porta.
O problema para mim não está no que disse a 'consultora de moda', mas na idéia que o conjunto da matéria representa. E o que eles quiseram dizer foi claramente isso: a moça estava errada; essa roupa, não é roupa para frequentar círculos sociais 'decentes', muito menos, roupa de uma mulher 'digna' usar; logo, a violência está justificada.
É mole?
É, fantástico...
O ato de barbárie, exige investigação e punição de culpados. A violência de gênero foi explícita: a violência ali, ultrapassou o corpo da moça. Foi contra as mulheres.
Mas, tudo isso tem sido discutido e felizmente a maioria das pessoas chega a essa conclusão quando lê as linhas das notícias. Mas, há os que contra o bom senso (e a favor de uma moral ultra conservadora), preferem extrapolar. Falo do Fantástico, da Rede Globo e da maneira como abordou a questão na edição do último domingo.
Esperava-se no mínimo uma discussão sobre a violência de gênero sofrida pelas mulheres. Pois bem sabemos, se fosse um homem com uma roupa curta, essa caça à bruxa não teria ocorrido. Mas para nossa surpresa (ou não...) o Fantástico preferiu abordar o assunto como se tratasse de sugerir onde e que tipo de roupa usar, e para tanto, chamou para falar sobre o ato de violência, barbárie, a 'consultora de moda' (!) Glorinha Kalil, que jogou nas costas da moça a culpa, devido à inadequação de seu traje naquele momento. Glorinha diz depois, que nada justifica tal violência. Mas o peso de sua primeira declaração, para mim, anula qualquer boa intenção em sua análise:
“Quando a gente põe uma roupa errada, a roupa que não combinou com o lugar que a gente foi, a gente acaba sendo lida de uma maneira que não era a que a gente gostaria. Foi o que aconteceu aqui. Olha, nada, mas nada mesmo, justifica a agressão que essa moça sofreu.”
Estou ficando paranóico? Porque, se chegamos ao ponto, de aceitarmos passivamente que veículos da 'grande' mídia afirmem em entrelinhas através da fala de uma 'especialista' em etiqueta, que um vestido curto é motivo para recriminação e violência moral, chegamos ao ponto de entregar os pontos. Apagar a luz, sair e fechar a porta.
O problema para mim não está no que disse a 'consultora de moda', mas na idéia que o conjunto da matéria representa. E o que eles quiseram dizer foi claramente isso: a moça estava errada; essa roupa, não é roupa para frequentar círculos sociais 'decentes', muito menos, roupa de uma mulher 'digna' usar; logo, a violência está justificada.
É mole?
É, fantástico...
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1 de novembro de 2009
Ciclo
O ciclo é um tipo de medida: é cercar alguma coisa em uma linha temporal, atribuir o início, o fim. É invenção. O dia é um ciclo. Antes, é um 'subir'e 'descer' do sol. Se criado é, como pois, se repete? Existe algo - sim, algumas essências existem -, um movimento, para o qual lançamos o olhar, e então atribuímos números, códigos, nomes. Algo que acontece sempre independente do (melhor: desse ou daquele) olhar. Algo que se repete nas mais variadas situações. É difícil de entender (ok, aceitar). Mas há uma vantagem na repetição: conhecido o caminho, pode-se aplicar um tipo de manipulação. E talvez as coisas, sejam diferentes. E o final, feliz.
2 de outubro de 2009
Obrigado, Monique!
. Eu gosto de sebos. Gosto de 'caçar' coisas naquele mundo já vivido, já experimentado. E depois, chegar em casa e lavar as mãos, e ver a água cinza, sujeira do tempo, água cinza, impregnada de histórias.
. Eu gosto de brechós e de roupas que já viveram outras coisas que a vida na fábrica, que já sentiram outras mãos, que as mãos das costureiras, outros corpos que os dos manequins; que já foram a festas e receberam entre seus fios vinho, cerveja, saliva, sexo. Roupas que contém e contam histórias.
. Eu gosto de discos de vinil de sebos. Gosto de sentí-los, de tê-los nas mãos, de sentir o peso da arte. Gosto de procurar por riscos, com cuidado, segurando pelas bordas. Gosto de soprá-los pra tirar a poeira, pra deixá-los limpos. E gosto das dedicatórias nas capas, a marca do tempo. É comprar o Travessia, do Milton Nascimento por 4 reais, e como brinde de valor inestimável, ganhar a inscrição à mão, em caneta azul, na contracapa:
"Para você que agora está atravessando uma fase da vida, nada mais de acordo do que o exemplo de alguém que fez e faz uma maravilhosa 'Travessia'. Toda a felicidade do mundo prá você.
Monique
28-04-79"
É ler isso, e pensar, quem é Monique, quem, antes de eu nascer escreveu algo, que hoje, é para mim? Quem diria, Monique, sem te saber, sem te ver, você me tem algo a dizer. É agradecer: obrigado Monique! Amei o presente.
. Eu gosto de brechós e de roupas que já viveram outras coisas que a vida na fábrica, que já sentiram outras mãos, que as mãos das costureiras, outros corpos que os dos manequins; que já foram a festas e receberam entre seus fios vinho, cerveja, saliva, sexo. Roupas que contém e contam histórias.
. Eu gosto de discos de vinil de sebos. Gosto de sentí-los, de tê-los nas mãos, de sentir o peso da arte. Gosto de procurar por riscos, com cuidado, segurando pelas bordas. Gosto de soprá-los pra tirar a poeira, pra deixá-los limpos. E gosto das dedicatórias nas capas, a marca do tempo. É comprar o Travessia, do Milton Nascimento por 4 reais, e como brinde de valor inestimável, ganhar a inscrição à mão, em caneta azul, na contracapa:
"Para você que agora está atravessando uma fase da vida, nada mais de acordo do que o exemplo de alguém que fez e faz uma maravilhosa 'Travessia'. Toda a felicidade do mundo prá você.
Monique
28-04-79"
É ler isso, e pensar, quem é Monique, quem, antes de eu nascer escreveu algo, que hoje, é para mim? Quem diria, Monique, sem te saber, sem te ver, você me tem algo a dizer. É agradecer: obrigado Monique! Amei o presente.
17 de agosto de 2009
A vida por um fio
É assim, de repente você recebe um telefonema que muda seu dia.
Aquela situação: você para, cancela tudo, esquece dos inadiáveis compromissos e vai ao encontro da despedida.
E é aí que, quando tudo passa, angustiado, se lembra de tantas coisas que deixou de fazer, tantos abraços que deixou de dar, tantos momentos que deixou de registrar, pensando sempre que se, hoje não deu, amanhã dará. Mas pode ser que não dê. Porque essa vida, essa vida que vivemos, vive por um fio. Vive presa num fio. Um frágil fio que pode se romper por pequenos motivos, motivos tão banais e estúpidos que chega a ser difícil de acreditar. De repente, o fim. E pronto, é isso, sem direito a contestações.
Michelle, pequena ma belle, como sempre costumava fazer na hora do bom-dia, uso agora, Beatles, pra lhe bem lembrar,
"that's all I wanto to say
until I find a way
I'll say the only words I know that you'll understand, my Michelle..."
fique bem, onde quer que esteja.
Aquela situação: você para, cancela tudo, esquece dos inadiáveis compromissos e vai ao encontro da despedida.
E é aí que, quando tudo passa, angustiado, se lembra de tantas coisas que deixou de fazer, tantos abraços que deixou de dar, tantos momentos que deixou de registrar, pensando sempre que se, hoje não deu, amanhã dará. Mas pode ser que não dê. Porque essa vida, essa vida que vivemos, vive por um fio. Vive presa num fio. Um frágil fio que pode se romper por pequenos motivos, motivos tão banais e estúpidos que chega a ser difícil de acreditar. De repente, o fim. E pronto, é isso, sem direito a contestações.
Michelle, pequena ma belle, como sempre costumava fazer na hora do bom-dia, uso agora, Beatles, pra lhe bem lembrar,
"that's all I wanto to say
until I find a way
I'll say the only words I know that you'll understand, my Michelle..."
fique bem, onde quer que esteja.
16 de agosto de 2009
Tem dias
Tem dias que a gente acorda com o mundo na mão,
tem dias que a gente acorda com medo do mundo, então
tem dias que a gente acorda não querendo acordar e
tem dias que a gente acorda querendo apagar,
tem dia, tem dias...
tem mundos...
tem tanta coisa... e hoje a preguiça é imensa,
o mundo hoje está um saco
por mim descia e ia pra outro lugar.
Ah, ilusão.
tem dias que a gente acorda com medo do mundo, então
tem dias que a gente acorda não querendo acordar e
tem dias que a gente acorda querendo apagar,
tem dia, tem dias...
tem mundos...
tem tanta coisa... e hoje a preguiça é imensa,
o mundo hoje está um saco
por mim descia e ia pra outro lugar.
Ah, ilusão.
12 de agosto de 2009
C'est fantastique!
Sim, é impressionante como uma fotografia que você fez, diz tanto sobre você. E como várias fotografias que você fez, juntas, te dissecam, te exploram, dizem quase tudo sobre você! Me assustei, até.
Mas existe um limite, justamente aquele que define que esta vida é a minha e não a sua. É fácil eu perceber minhas coisas, preferências, ideologias, medos e conflitos nas minhas fotografias. Não sei até que ponto, esse discurso impresso em papel (ou contemporaneamente exposto em pixels) é capaz de dizer coisas que não se saiba a respeito do fotógrafo.
O óbvio surge, claro, é a pele, é o que salta para fora, o externado. Mas o que instiga são as entranhas, o que está dentro e não se conhece. Essa outra parte, só uma conversa com o autor pode resolver. Se não, é tudo conjuntura, especulação, psicanálise de terceira. Na melhor das hipóteses, a conversa confirma as conjunturas e hipóteses. E aí, a fotografia surge novamente como algo "revelador" e encantador.
C'est fantastique!
Mas existe um limite, justamente aquele que define que esta vida é a minha e não a sua. É fácil eu perceber minhas coisas, preferências, ideologias, medos e conflitos nas minhas fotografias. Não sei até que ponto, esse discurso impresso em papel (ou contemporaneamente exposto em pixels) é capaz de dizer coisas que não se saiba a respeito do fotógrafo.
O óbvio surge, claro, é a pele, é o que salta para fora, o externado. Mas o que instiga são as entranhas, o que está dentro e não se conhece. Essa outra parte, só uma conversa com o autor pode resolver. Se não, é tudo conjuntura, especulação, psicanálise de terceira. Na melhor das hipóteses, a conversa confirma as conjunturas e hipóteses. E aí, a fotografia surge novamente como algo "revelador" e encantador.
C'est fantastique!
3 de agosto de 2009
Cecília Meireles
Despedida
POR MIM, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.
POR MIM, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.
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