"Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida... preciso demais desabafar." O que penso, o que sinto, acima de tudo o que não consigo calar.
15 de dezembro de 2010
All things must pass
12 de dezembro de 2010
Sobre o prazo de validade das coisas
Tudo vence um dia. Tudo vence num dia, num outro dia, vence-se tudo. É uma escolha, ser vencido, vencer.
8 de dezembro de 2010
O bom-dia e a estética-do-viver
Diariamente oferece alguns bons-dias sem esperar muito em troca. Não que tenha se acostumado à tradicional falta de humor que as pessoas tornam-se em grandes cidades, também pudera, são buzinas, fumaças, sirenes e trombadas já pela manhã, mas porque tem a continua impressão de que as pessoas, aqueles conhecidos (não os amigos, aqueles outros, que se veem diariamente e por causa disso mesmo, dessa repetição diária de contato visual sem maiores expectativas, tem suas caras umas gravadas nas mentes das outras), não se reconhecem. Não sabe explicar de onde vem essa sensação, o que sabe, é que não repondem ao cumprimento o que muitas vezes, faz com que ele mesmo, não dê partida à cortesia.
E hoje, que surpresa. Ao descer do ônibus, depois de um saldo de cinquenta por cento de sucesso nos bons-dias até então oferecidos, sendo o motorista o responsável pela metade perdida e o cobrador o responsável pela metade ganha, eis que desce e aproxima-se da barraquinha da moça que vende café na calçada do hospital, prepara-se para o próximo bom-dia quando percebe, ela, num movimento rápido, antes das palavras saltarem da sua boca, abre o pote onde ficam os copos plásticos em que serve o café, saca um, posiciona-o abaixo da saída da garrafa e aciona o sistema de vácuo que faz-lo jorrar. Ela serve o café, bom-dia, ele diz. O bom-dia saiu assim, chocho, pois do espanto, não foi um desses bons-dias, do tipo "bom-dia!!!", foi um bom-dia do tipo "bom-dia…", e foi mesmo assim desconfiado e com reticências, porque antes de dizer o que queria, antes do bom-dia deixar de ser intenção e ser um bom-dia de fato, ela já tinha servido o quente e necessário cafézinho (e é importante saber, ela não vendia só café, haviam ali bolos variados, doces, leite e o brasileiríssimo, digo mineiríssimo, pão de queijo, poderia ele escolher qualquer uma dessas quitandas, como se diz lá em Minas, mas não, sabia ela que ele queria era o café, só o café, e esse de um real, porque tem também ali na barraquinha o de cinquenta centavos, metade do volume, o que não provê cafeína nem para passar o sono, menos ainda para as leituras densas e empoeiradas que tem feito), o que vem provar que, a moça se lembrava dele, de todas as outras vezes em que ele tinha por ali passado, de todos os outros bons-dias que havia dado e de todos os outros cafés de um real que havia comprado. Isso o fez pensar, que também talvez, todas aquelas pessoas conhecidas, não os amigos, os outros do caminho, e de diversos outros caminhos, porque o que mais temos na vida são caminhos e pessoas percorridos diariamente, também se lembrem dele, do mesmo jeito que ele se lembra delas, o que causa maior inquietação porque patente fica que ambos dão-se ao mesmo desagradável hábito: não se bom-diam-se, porque pensam, não lembram-se um do outro.
Essa sensação foi confirmada, após ela responder o bom-dia alegremente, não um "bom-dia…", mas um "bom-dia!!!". Ela só não se lembrou que o café que ele bebe, é sem açúcar (também pudera, não se pode lembrar de tudo a todo momento nessa vida), se fosse uísque, seria do tipo "cowboy", mas é café, só água muito quente e café, puro. Quando ela aproximou a colher do pote do doce e branco ganulado, foi lembrada: "o meu é sem açúcar", ele disse, espanto novamente, disse a moça: "ah! verdade, sem açúcar, sempre esqueço que o seu é sem açúcar, igual o do meu marido, do meu irmão, eles também bebem assim, como você, sem açúcar…" (vejam só, ele de repente, na mesma sentença que seus parentes mais íntimos, o filho da sogra e o outro filho da mãe, e ele, sabe-se lá filho de quem, ligados por essa preferência da amarguez do café, o que vem mostrar também que sim, ela se lembrou dele, afinal, não iria colocá-lo na mesma categoria de preferências amarguísticas que seus familiares se fosse um total estranho. É preciso mínima intimidade para adentrar um lar. Esse "sempre", foi confirmar: ela sabe quem ele é, não exatamente quem ele é no sentido de saber onde e de que corpos nascera, de onde vem, se é de deus ou do diabo, o que faz, se gosta de mulher, de homem, ou dos dois, se é casado e tem filhos, se gosta de futebol, e sendo sim a resposta, se torce pro Corinthians, Palmeiras ou São Paulo, sendo não, "que estranho, não gostar de futebol", essas coisas que todo mundo gosta de saber sobre tudo mundo. Sabe ela, quem ele é, porque ele é diariamente, aquele que desce do ônibus vermelho, vira a esquina e pede um café de um real (sem açúcar). Aquele que dá um bom-dia, sem muito esperar em troca. Talvez desconfiado, talvez medroso, talvez confuso, talvez ela pense “que raios de bom-dia é esse”, diariamente confuso, por antes estar medroso, desconfiado, com o que não sabe, com a vida talvez, essas coisas metafísicas e existenciais, por que não psicológicas, que tiram o sossego de qualquer um humano.
Mas hoje sobrou um pouco de clareza, da certeza, de que a confusão talvez nem exista de fato, ou pelo menos, diferente de existir, assim, substancialmente existência, seria mais algo que se faz questão de manter, como essas linhas penduradas nas barras ou mangas das camisas, que um puxão com pouca força já dá conta de resolver a questão estética e pendente. Entrou no parque, continuou a leitura do romance enquanto terminava o café de um real puro (puro o café, não o real, porque todo dinheiro é sujo, se não na sujeira que das mãos passam ao papel ou ao metal da moeda, na sujeira de ser mesmo dinheiro em si) com a certeza de que amanhã se tudo der certo, pelo menos um bom-dia sabe que ouvirá, um "bom-dia!!!", não um "bom-dia…", com o que, abraçará a moça do café, dirá ter sentido saudades, menos, o “bom-dia!!!” em resposta basta.
É preciso coragem para dar um bom-dia, porque cada bom-dia por simples que pareça é invasão, é um enfrentamento; é preciso coragem para responder a um bom-dia, porque cada bom-dia respondido, é um doar-se, é deixar ir um pouco de si e aceitar um teco do outro. É troca e como troca é, será também, se sucesso tiver a empreitada, uma dádiva, pra encerrar a coisa assim com um tom de antropologia. E como servir um café antes do bom-dia sair, põe tantas engrenagens mentais, simbólicas, psicológicas e metafísicas a se engrenarem e roçarem-se umas nas outras, ele já tem uma lição desse dia, se fosse um daqueles contos infantis, a tal da “moral da história” seria, puxar com mais força e coragem e quebrar essas linhas, coisas penduradas, linhas-coisas-penduradas escreveria o Latour, pois gosta dos hífens como ninguém, que talvez nem existam mas estragam a estética-do-viver.
25 de julho de 2010
Por um pouco de razão
12 de fevereiro de 2010
10 de fevereiro de 2010
Ninguém vai a um hospital passear -ou "I don't want to follow death and all of his friends"
Ao entrar na sala onde os pacientes recebem a medicação intravenosa revi e lembrei-me daqueles rostos familiares, médicos e enfermeiros. Eu -em um processo unilateral- os reconheci. Por parte deles, eu era mais um estranho: talvez um acompanhante em busca de algum paciente ou simplesmente alguém que quisesse saber onde era o banheiro.
Uma sensação incômoda tomou conta de mim. Senti-me traído. Como se naquele momento, tivesse assumido a pessoa de minha avó frente àquelas pessoas: enquanto eu, "morta", tinha abandonado essa vida depois de muita dor e sofrimento, ali, para aquelas pessoas que propuseram me salvar, tudo continuava igual: os mesmos medicamentos, a mesma rotina, mais pacientes, mais casos. Senti-me traído. Estavam todos ali, trabalhando normalmente, alguns já prontos para o almoço, outros, chegando para assumir seus postos. Não entendo ao certo o porque, mas o que senti foi a dor de uma traição. Lágrimas vieram aos olhos.
Quando rapidamente deixei o lugar, um mal estar tomou conta de meu corpo. A sensação de traição continua e vem à tona quando lembro-me daqueles rostos sorridentes, e da dor de minha avó. Talvez se não nos propuséssemos a à qualquer custo prolongar a vida, e mais, a acreditar que a vida deve ser prolongada, sentissemos menos dor; talvez não sobraria estado para a sensação da traição cometida por aqueles que não conseguem salvar uma vida, esses que falham.
30 de janeiro de 2010
Por baixo do fino véu
30/01/2010 - 17h47
Exército dos EUA anuncia suspensão de voos com feridos haitianos
da France Presse, em Washington
da Folha Online
O Exército americano confirmou neste sábado a suspensão dos voos de retirada de haitianos gravemente feridos durante o terremoto de 12 de janeiro, enquanto aguarda uma decisão sobre quem se encarregará das despesas com o tratamento deles nos Estados Unidos.
"Cancelamos temporariamente esses voos de retirada de haitianos, mas temos meios de retomá-los", afirmou o capitão Kevin Aandahl, porta-voz da Transcom, a unidade de gestão dos transportes do Pentágono, em correspondência enviada à France Presse.
A informação corrobora uma notícia divulgada neste sábado pelo jornal "The New York Times".
Citando fontes militares, o jornal informa que os voos militares com pessoas atingidas na coluna, com queimaduras e outros ferimentos graves foram interrompidos na quarta-feira (27) passada depois que o governador da Flórida, Charlie Crist, pediu apoio do governo federal para pagar pelos cuidados das vítimas do terremoto.
Até agora, os hospitais da Flórida trataram mais de 500 pessoas, incluindo um menino resgatado dos escombros com o crânio e várias costelas quebradas.
Os voos para outros Estados que recebiam pacientes haitianos também foram suspensos.
O cancelamento poderá ser catastrófico para os pacientes, segundo Berth Green, um dos fundadores do Projeto Medishare para o Haiti, uma organização sem fins lucrativos associada à Miller School of Medicine da Universidade de Miami, que realiza as retiradas de feridos.
Crist não especificou o quanto custa à Flórida o serviço médico oferecido, mas, segundo ele, o número e a complexidade dos casos eleva a cifra a vários milhões de dólares.
O gasto imprevisto ocorre em um mau momento econômico para a Flórida.
Tragédia
O terremoto aconteceu às 16h53 do último dia 12 (19h53 no horário de Brasília) e teve epicentro a 15 quilômetros de Porto Príncipe, que ficou virtualmente devastada. O Palácio Nacional e a maioria dos prédios oficiais desabaram. O mesmo aconteceu na sede da Minustah, missão de paz da ONU, liderada militarmente pelo Brasil.
Ainda não há um dado preciso do total de mortos. O balanço das Nações Unidas divulgado nesta segunda-feira indica um total de 112.250 mortos e outros 194 mil feridos. Já o governo haitiano confirmou neste domingo que o número de mortos no país já atingiu 150 mil somente na região metropolitana de Porto Príncipe.
Entre os brasileiros, 21 morreram, sendo 18 militares e três civis --a brasileira Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, o chefe-adjunto civil da missão da ONU no Haiti, Luiz Carlos da Costa, e uma brasileira com dupla-cidadania europeia que não teve a identidade divulgada a pedido da família.
25 de janeiro de 2010
Desabafo
Sobre falar ou escrever, ainda, desabafar, é que precisamos aprender. Porque palavras estão ai, trata-se do o que mais ouvimos e lemos. Vivemos em um espaço que antes, é dominado pelas letras e suas associações. Sinceros desabafos, que sufocados rompam a barreira do silêncio, da moral e do corpo é do que precisamos. Nos sentimos (e ignore sua presença nessa primeira pessoa do plural se não lhe convém) tão livres e ao mesmo tempo tão presos que o sufoco é a medida do desabafo. É uma solidão silenciosa, um tentar resolver sem solução, um desabafo.
2 de dezembro de 2009
Sobre como se perceber observado - e se aterrorizar
A conversa seguia; o suco chegou, depois o lanche, na sequência o mal estar.
Algo não estava bem. E tinha a ver com o queijo e com o ovo do americano, ele sabia. Não que sua companhia tivesse em algum momento deixado transparecer algum tipo de intolerância quanto ao consumo daqueles produtos após um dia de discussões sobre como precisamos repensar isso; muito pelo contrário, dentre os que conhecia que abstinham-se do consumo total de produtos de origem animal, esse que dividia com ele a mesa, era dos mais tranquilos. Sabia que naquele momento a nenhuma conclusão chegaria, deixou então que a conversa seguisse seu rumo, e comeu o americano com queijo e ovo.
Conta paga, passos em direção ao carro, o americano parecia vivo no estômago. Algo de fato não estava bem. No quarto emprestado por um amigo para o pernoite, se colocou a pensar sobre a situação. E aí, uma conclusão.
Dois ou três dias antes, conversava com outro amigo, sobre todas essas questões tristes da exploração, da exploração dos não humanos, de que maneira, sentia-se irritado e intolerante com aqueles que, apesar de 'enxergarem' o problema, nada faziam, queria dizer, não deixavam de consumir carne. E, bingo!
Por inúmeras vezes, esteve na posição do seu camarada de causa na mesa do bar na Augusta. Na posição daquele que, vê algo que não concorda ser executado, porém tolera em nome de outras coisas. Uma tolerância que no seu caso, na conversa de dois dias antes, com seu outro amigo, já mostrava-se bastante desgastada. Sentiu então que estava na posição exata desses que enxergam o problema mas nada fazem: [no seu caso] concordar que galinhas e vacas são exploradas para a produção de leite e ovos e ao mesmo tempo comer um americano com queijo e ovo, mostrava-se claramente, no mínimo, incoerente. E ali, naquele momento de reflexão não houve recurso à cultura, à diversidade cultural, abordagem antropológica, que conseguisse fazê-lo mudar de idéia. Sentiu-se no lugar do outro, do outro que inúmeras vezes criticou. E por que? O que o fez nesse momento, na mesa do bar, sentir isso? Foi o olhar que estava dirigido a ele e ao seu lanche: o olhar do camarada de causa que, sem falar nada, disse tudo. Esse era o seu olhar em outros olhos. Foi observado por suas idéias. Isso o aterrorizou.
Ponderou mudar de atitude com relação ao seu consumo de queijos e ovos. O fará. A partir do próximo nascer do sol.
3 de novembro de 2009
Claude Lévi-Strauss
Não posso dizer que sinto profundamente a morte de Lévi-Strauss.
Todos morrem um dia. E a expectativa da morte aumenta proporcionalmente aos anos vividos; chegar aos 100 anos é mais do que nada, esperar dia após dia o último dia. Talvez para ele, a morte tenha sido um descanso merecido. O que mais sinto é que perdemos um dos maiores intelectuais de todos os tempos, que escolheu a antropologia para pensar e criticar o homem e as relações que mantem entre si, e com todo o ambiente em que vive. Lévi-Strauss sempre foi muito mais do que as 'rígidas' estruturas a que deu vida. Seu pensamento de caráter plural, muitas vezes mal interpretado, traz à tona desde o início do século XX, problemas que dizem respeito às relações humanas, meio ambiente, relações com os animais.
E essa é minha homenagem a ele.
Para lembrá-lo, apresento os trechos abaixo, importantes para mim, que (1) foram extraídos da entrevista concedida à revista Cult (ano 10, número 110) e (2) constam em seu artigo "A lição de sabedoria das vacas loucas". Dois textos recentes, que mostram plena serenidade e lucidez, de um pensador que já contava mais de 90 anos.
(1)
Eu desejo ardentemente que as autoridades brasileiras se interessem por eles [índios nambikwara] e que deem meios para que cada grupo indígena possa prosseguir vivendo de forma independente. Evidentemente que não será da forma tradicional que eles viviam antes e que eu presenciei, mas, em todo caso, é preciso permitir-lhes escolher livremente entre o que eles querem conservar de suas tradições e de suas formas de vida e o que eles querem emprestar da cultura ocidental.
...
A questão que dominava verdadeiramente meu pensamento há muito tempo - e ainda mais nos dias de hoje - é que quando eu nasci havia 1,5 bilhão de habitantes sobre a Terra. Quando entrei para a vida ativa profissional e fui morar com os bororo e os nambikwara, dois bilhões, e agora há seis bilhões. Em poucos anos, serão oito ou nove. Aos meus olhos, esse é o problema fundamental do futuro da humanidade e, pessoalmente - embora isso não tenha importância porque eu não estarei mais aqui - , eu não vejo muito esperança para um mundo assim tão cheio.
(2)
Pode-se dizer que ainda hoje temos certa consciência daquela solidariedade primeira entre todas as formas de vida. Buscamos imprimir o sentimento dessa continuidade no espírito de nossas crianças desde cedo: nós as cercamos de simulacros de animais em borracha ou em pelúcia, e os primeiros livros de figuras que colocamos sob seus olhos lhes mostram o urso, o elefante, o cavalo, o asno, o cão, o gato, a galinha, o rato, o coelho etc. muito antes que elas os deparem realmente, como se devêssemos dar-lhes desde a mais tenra idade a nostalgia de uma unidade que logo saberão rompida.
...
O vínculo entre alimentação carnívora e um canibalismo ampliado tem conotação talvez universal e, assim, raízes muito profundas no pensamento. Ele vem ao primeiro plano com a epidemia das vacas loucas, uma vez que ao pavor de contrair uma doença letal se soma o
horror que tradicionalmente nos inspira o canibalismo, ora extensivo aos bovinos. Condicionados desde a primeira infância, decerto permanecemos carnívoros e buscamos carnes substitutivas. Não é de menos, portanto, que o consumo de carne tenha diminuído de forma espetacular: bem antes desses eventos, quantos de nós passaríamos diante de um açougue e experimentaríamos mal-estar ao vê-lo sob a ótica antecipada dos séculos vindouros? Pois dia virá em que a idéia de que os homens do passado criavam e massacravam seres vivos para se alimentar e complacentemente expunham sua carne aos pedaços em
vitrines inspirará a mesma repulsa que os repastos canibais dos selvagens da América, da Oceania e da África despertavam nos viajantes dos séculos XVI e XVII.
...
Foi um belo fim de vida.

